Quando eu era criança
Desenhava o amanhã
Da janela do meu quarto
E pintava a profundidade dos dias
Com a cor de fundo do horizonte
Quando eu era criança
Os meus sonhos debruçavam-se
De braços abertos sobre o infinito
E todo o latejar da vida
Transpunha o parapeito
Da janela do meu quarto
Mas pouco a pouco
Fui perdendo os pincéis
E foi-me faltando a tinta
E a tela sobre a qual
Imaginava o amanhã
Da janela do meu quarto
Era a criança que fui outrora
E como ainda penso
Na criança que era
Da janela do meu quarto…
Porque hoje apenas estou
Na janela do meu quarto.
Na verdade nunca estive
Tanto no meu quarto como hoje
E na minha janela como agora
Circunscrito àquele lugar.
Quando eu era criança
Da janela do meu quarto…
sábado, 9 de agosto de 2008
domingo, 22 de junio de 2008
O verbo do silêncio
Precisamos do silêncio para escutar
O mais íntimo de nós a que somos surdos
Nesta encruzilhada de diálogos infecundos
Em que teimamos medir a força de um verbo
Obeso da bulimia de um ouvido faminto
De apenas escutar a sua voz.
Conceder-nos o silêncio, a nossa mudez
Onde a hora calada nos segrede o verbo
Mais antigo e cravado na nossa carne
Purificando o sangue que nos deu vida
Na palavra germinada sem falar.
Colhemos da caminhada no silêncio
A consistência oportuna de um instante verbal.
O mais íntimo de nós a que somos surdos
Nesta encruzilhada de diálogos infecundos
Em que teimamos medir a força de um verbo
Obeso da bulimia de um ouvido faminto
De apenas escutar a sua voz.
Conceder-nos o silêncio, a nossa mudez
Onde a hora calada nos segrede o verbo
Mais antigo e cravado na nossa carne
Purificando o sangue que nos deu vida
Na palavra germinada sem falar.
Colhemos da caminhada no silêncio
A consistência oportuna de um instante verbal.
martes, 25 de septiembre de 2007
Que o tempo nos baste
jueves, 26 de julio de 2007
REENCONTRO COM A DESPEDIDA

Despedimo-nos com um olhar de Outono chegado
Sentindo um abandono intemporal da primavera
Que permanecera entre nós sem outra estação.
Partimos numa dúvida decidida de partir
Porque há quem parta por mera imposição
De uma vontade racional que não se sente.
Jamais falámos senão na distância de pensamentos a sós
Aventurando-me na previsão de respostas dadas por ti
Aos questionários formulados pela minha solidão
Em linhas de horizontes que se despediam de mim.
Em quantas páginas seguintes nos reinventámos
Num livro continuado pela fantasia do amanhã
Onde se traçava um caminho a par e diferente
Do precipício que vislumbrámos face a face.
Chegados ao local do reencontro
Revemos a imagem actualizada do passado
Onde o abismo estende uma ponte à outra margem
E o presente amanhece como se o amanhã fosse nosso
Num recomeço que apenas aguarda serenamente a sua hora.
Há partidas que serão sempre regressos sem previsão
Deixadas ao destino traçado no mistério dos seus passos.
lunes, 16 de julio de 2007
Far-te-ei

Far-te-ei o canto da ave em que desperto
De um sono calmo onde já és sonhada;
Far-te-ei o primeiro rasgo de luz na madrugada
Que traça teu corpo nu e cintilante;
Far-te-ei o sonho sobre o qual caminho
Numa visão do longe em que te alcanço;
Far-te-ei o leito da noite onde me deito
Sem horas certas para te deixar de sonhar;
Far-te-ei meu sonido num silêncio perpétuo
No qual te escuto e te oiço só a ti;
Far-te-ei o meu ocaso e a madrugada
Onde me adormeço e em ti renasço;
Far-te-ei em tudo o que em minha vida acontece
No mais ínfimo sinal desta existência;
Far-te-ei o mar e a areia, a minha praia
Em que permanecerei depois de partir.
Far-te-ei apenas minha porque te amo.
jueves, 21 de junio de 2007
SAL DA VIDA

Deixamos o beijo salgado da despedida
Nos lábios rochosos de uma enseada
Há tempos abandonada pelo mar.
Deixamos o sal das lágrimas secas
No lenço branco caído nos degraus
Que descemos pela última vez.
Deixamos cristalizado no corpo que amámos
O sal da saliva derramada no acto de amor
Como a última refeição de um condenado.
Deixamos o sal da vida algures
Por lugares que nos convencemos desertos
Onde nos esperam sem o esperarmos.
miércoles, 30 de mayo de 2007
CAIS DE ABRIGO

Já fui ao cais
esperar a chegada
dos meus sonhos
trazidos no vento
do alto mar.
Já fui ao cais
na ânsia das ondas
que soltam as ilusões
em que adormeço
numa viagem ritmada
do mágico traço azul.
Já fui ao cais
para me sentir
regido pelas marés
e no crepúsculo nocturno
partir como quem nasce
ao sabor do acaso
em expansão contínua
e no regresso
trazer nos lábios
a voz das ondas
e na alma a maresia
que o mar concede.
Já fui ao cais
esperar essa chegada
na qual parta
sem ter fim.
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