lunes, 9 de abril de 2007

ACREDITO EM TI




Minhas fáceis palavras
Podem omitir Teu nome,
Meus actos mais parecem
Ocultar Tua existência,
Minha vida intempestiva
Nem sempre Te reconhece.
Mas acredito em Ti.

Creio ser meu propósito
Transmitir Teu testemunho,
Creio ter uma caminhada
Com Teu tácito acordo,
Creio desbravar a vida
Em Tua reflexa imagem.
Porque acredito em Ti.

Sei que sou falho
Por falha certeza de ser
Sei que me reinvento
Sobre genuína ilusão
Sei de um sonho que busco
Para além do meu sonhar.
Porque acredito em Ti.

Mas sempre regresso
À fonte em que aprendi a beber
E sempre revejo a árvore
Dos frutos que outrora colhi
De um pomar de sementes de luz
Que o céu se incumbiu de regar.
Porque acredito em Ti.

Por isso tenho-me teu
Numa pertença de livre opção
Na qual esvoaça a ave que migra
Entre desígnios traçados para mim
E me atrevo por vastos caminhos
Onde reencontro as tuas pegadas.
Porque acredito em Ti.

viernes, 30 de marzo de 2007

PARTIR



Podia partir na busca
Do reencontro
Sem olhar para trás
E sem revisão do acto
De partir em busca
Do reencontro.

Podia partir no desvairo
Incontido e voraz
De recuperar todas
As pétalas que amei
Na densa floresta
Das promessas eternas
No bosque edílico
Dos castos sentimentos
No labiríntico jardim
Das sucessivas paixões
No oásis reservado
Aos secretos amores.

Podia partir sem avisar
Sem norte nem sentido
Sem destino previsto
Sem rumo definido
Sem opção tomada
Sem escolha prévia
Sem sequer pensar
Em nada nem nisso
De partir.

Podia partir
Em busca de mim
Num simultâneo regresso
Como o vai e vem
De um louco
Num corredor
De hospício.

Podia partir
Agora!

miércoles, 21 de marzo de 2007

EM PROL DA POESIA



Em prol da poesia

guardar-lhe-ei a noite

e o silêncio das palavras

e uma vela onde a chama

consuma seus sonhos.


Em prol da poesia

guardar-lhe-ei minhas horas

passadas frente ao mar

do qual a voz das ondas

me invada de maresia.


Em prol da poesia

guardar-lhe-ei

a planície da vida

o vale da morte

e o planalto

da eternidade.


Em prol da poesia

um sopro de alma

num gesto qualquer.

domingo, 11 de marzo de 2007

PALAVRAS NOSSAS




Amo as palavras
Que começam nos lábios
E findam num beijo

Amo as palavras
Que se cruzam num olhar
E se repetem mais tarde

Amo as palavras
Que estendem os braços
Aos braços estendidos

Amo as palavras
Que dão voz ao silêncio
De um desejo guardado

Amo as palavras
Que sempre em ti escuto
Sem nunca me as dizeres

Amo as palavras
Que hoje aqui escrevo
Porque falam de nós.

miércoles, 28 de febrero de 2007

O TEMPO DO EGO



Faz tempo
que deixei o meu menino
à porta de casa.
ficou à chuva e ao vento
deixado ao relento
do meu esquecimento.
faz tempo...

Tornei-me sem abrigo
ao fechar-me entre paredes
em que me selei a sós
e tive frio e fome e sede.
Cerquei-me de todos os agasalhos
e banqueteei-me sem convidado algum
no receio de não chegar.
Eu próprio fui as sobras
do quanto farto
de mim próprio fiquei.
E depois fui eu e eu e mais eu…
em contínua repetição
de mim mesmo.

Por fim,
o nada tomou-me nos braços
e eu caí.

Abriu-se-me a porta
e lá estava o menino
que supostamente não abriguei,
e com ele,
- faz tempo! –
tinha deixado meu coração.

sábado, 17 de febrero de 2007

A VOZ DAS (NOSSAS) SOMBRAS


Ouves os latidos
De todos os cães vadios
E acodes na noite
Aos desabrigos do dia
À insónia da cidade.


Ouves o sussurrar
Das folhas de plátano
Caídas neste Outono
E arrastadas pelo vento
Para os recantos gelados
Das sombras ocultadas
Pelos olhos da cidade.


Ouves os gemidos
Dos lençóis de papelão
Encostados às paredes
Revestidas de remendos
Sem janelas abertas
Nesta face da cidade.


Ouves os silêncios
Das vozes envergonhadas
Que se omitem
Entre becos abandonados
E baldios perdidos
Na distância dos olhares
De quem não vê
Mais que o seu nome
No diário da cidade.

miércoles, 7 de febrero de 2007

MÃE


Foste sol
ao despontar em ti
esse raio de luz
que me gerou;

Foste mar
ao me inundares com esse amor
em que naveguei no teu corpo
onde era já pressentido
só por me quereres;

Foste mãe
nessa centelha de vida
que inflamaste em teu ventre
e no qual fundámos
o nosso amor.