domingo, 11 de marzo de 2007

PALAVRAS NOSSAS




Amo as palavras
Que começam nos lábios
E findam num beijo

Amo as palavras
Que se cruzam num olhar
E se repetem mais tarde

Amo as palavras
Que estendem os braços
Aos braços estendidos

Amo as palavras
Que dão voz ao silêncio
De um desejo guardado

Amo as palavras
Que sempre em ti escuto
Sem nunca me as dizeres

Amo as palavras
Que hoje aqui escrevo
Porque falam de nós.

miércoles, 28 de febrero de 2007

O TEMPO DO EGO



Faz tempo
que deixei o meu menino
à porta de casa.
ficou à chuva e ao vento
deixado ao relento
do meu esquecimento.
faz tempo...

Tornei-me sem abrigo
ao fechar-me entre paredes
em que me selei a sós
e tive frio e fome e sede.
Cerquei-me de todos os agasalhos
e banqueteei-me sem convidado algum
no receio de não chegar.
Eu próprio fui as sobras
do quanto farto
de mim próprio fiquei.
E depois fui eu e eu e mais eu…
em contínua repetição
de mim mesmo.

Por fim,
o nada tomou-me nos braços
e eu caí.

Abriu-se-me a porta
e lá estava o menino
que supostamente não abriguei,
e com ele,
- faz tempo! –
tinha deixado meu coração.

sábado, 17 de febrero de 2007

A VOZ DAS (NOSSAS) SOMBRAS


Ouves os latidos
De todos os cães vadios
E acodes na noite
Aos desabrigos do dia
À insónia da cidade.


Ouves o sussurrar
Das folhas de plátano
Caídas neste Outono
E arrastadas pelo vento
Para os recantos gelados
Das sombras ocultadas
Pelos olhos da cidade.


Ouves os gemidos
Dos lençóis de papelão
Encostados às paredes
Revestidas de remendos
Sem janelas abertas
Nesta face da cidade.


Ouves os silêncios
Das vozes envergonhadas
Que se omitem
Entre becos abandonados
E baldios perdidos
Na distância dos olhares
De quem não vê
Mais que o seu nome
No diário da cidade.

miércoles, 7 de febrero de 2007

MÃE


Foste sol
ao despontar em ti
esse raio de luz
que me gerou;

Foste mar
ao me inundares com esse amor
em que naveguei no teu corpo
onde era já pressentido
só por me quereres;

Foste mãe
nessa centelha de vida
que inflamaste em teu ventre
e no qual fundámos
o nosso amor.

sábado, 27 de enero de 2007

A PINTURA




Pintamos por palavras

as cores das nossas emoções,

desenhamos por letras

a descomposta abstracção da alma,

pincelamos por sílabas

a paulatina caminhada da descoberta,

salpicamos a tela de fonemas

conjugando contrastes de modo,

esboçamos em cinza linguagem

a discreta intimidade que privamos,

traçamos de verbos inconstantes

o transparente acetato desta passagem.



Somos livre esboço inacabado

somos pinceladas numa tela invisual

somos informes aguarelas em dispersão

somos todas as cores em diversos tons.

miércoles, 17 de enero de 2007

CHORAR




Chorar todas as lágrimas
contidas por preconceito
chorar sem o orgulho
de o nunca ter feito.
Chorar nos olhos de quem ama
e chorar com a chama
do amor que arde no peito.
Chorar alheado de receios
de revelar em si a fraqueza
de um suposto acto sem nobreza.
Chorar como quem grita
toda a raiva da traição;
chorar com a súplica da desdita
prostrado na agonia do perdão.
E por fim chorar com alma
fluindo todo esse rio de calma
desses olhos marejados de paixão.
Chorar, mesmo uma vez que seja,
mas chorar sem vergonha de quem veja.

martes, 9 de enero de 2007

O QUE EU GOSTO




O que eu gosto é que me oiçam sem falar
aquilo que se eu falasse, ouviriam
O que eu gosto é de ouvir só com o olhar
ouvir, se falassem, o que eles diriam…

O que eu gosto é que oiçam em meus actos
as palavras que vão no meu gesto
O que eu gosto é de escutar só os factos
ouvir toda a orquestra só no maestro…

O que eu gosto é que oiçam minhas sensações
ouvir o que só o espirito sente
O que eu gosto é de ouvir nas emoções
toda essa palavra inexistente…