jueves, 21 de junio de 2007

SAL DA VIDA



Deixamos o beijo salgado da despedida
Nos lábios rochosos de uma enseada
Há tempos abandonada pelo mar.

Deixamos o sal das lágrimas secas
No lenço branco caído nos degraus
Que descemos pela última vez.

Deixamos cristalizado no corpo que amámos
O sal da saliva derramada no acto de amor
Como a última refeição de um condenado.

Deixamos o sal da vida algures
Por lugares que nos convencemos desertos
Onde nos esperam sem o esperarmos.

miércoles, 30 de mayo de 2007

CAIS DE ABRIGO



Já fui ao cais
esperar a chegada
dos meus sonhos
trazidos no vento
do alto mar.
Já fui ao cais
na ânsia das ondas
que soltam as ilusões
em que adormeço
numa viagem ritmada
do mágico traço azul.
Já fui ao cais
para me sentir
regido pelas marés
e no crepúsculo nocturno
partir como quem nasce
ao sabor do acaso
em expansão contínua
e no regresso
trazer nos lábios
a voz das ondas
e na alma a maresia
que o mar concede.
Já fui ao cais
esperar essa chegada
na qual parta
sem ter fim.


jueves, 26 de abril de 2007

O BECO DA SEDUÇÃO




Há pessoas que se cruzam


Sem olhares face a face


E sem o sabor dos lábios


Que se beijam entre linhas


Escritas na distância oculta


Do seu espaço anónimo.


Há pessoas que se espreitam


Entre janelas envergonhadas


Atrás das quais foram crescendo


Sem portas abertas ao imprevisto


Que espreitam nas fechaduras.


Há pessoas que se querem a dois


Tropeçando entre pedras soltas


E desgovernadas como seu caminho


De enseadas, becos e baldios


De planícies, infinitos e horizontes.


Há pessoas tão chegadas


Tão apertadas num forte abraço


Tão esperadas e desejadas entre si


E que se esgotam no mero ápice


De incertezas em encontros últimos.


Há pessoas, tantas pessoas


Que entre si transitam


Sem querer e por querer


Mas sem destino final.

lunes, 9 de abril de 2007

ACREDITO EM TI




Minhas fáceis palavras
Podem omitir Teu nome,
Meus actos mais parecem
Ocultar Tua existência,
Minha vida intempestiva
Nem sempre Te reconhece.
Mas acredito em Ti.

Creio ser meu propósito
Transmitir Teu testemunho,
Creio ter uma caminhada
Com Teu tácito acordo,
Creio desbravar a vida
Em Tua reflexa imagem.
Porque acredito em Ti.

Sei que sou falho
Por falha certeza de ser
Sei que me reinvento
Sobre genuína ilusão
Sei de um sonho que busco
Para além do meu sonhar.
Porque acredito em Ti.

Mas sempre regresso
À fonte em que aprendi a beber
E sempre revejo a árvore
Dos frutos que outrora colhi
De um pomar de sementes de luz
Que o céu se incumbiu de regar.
Porque acredito em Ti.

Por isso tenho-me teu
Numa pertença de livre opção
Na qual esvoaça a ave que migra
Entre desígnios traçados para mim
E me atrevo por vastos caminhos
Onde reencontro as tuas pegadas.
Porque acredito em Ti.

viernes, 30 de marzo de 2007

PARTIR



Podia partir na busca
Do reencontro
Sem olhar para trás
E sem revisão do acto
De partir em busca
Do reencontro.

Podia partir no desvairo
Incontido e voraz
De recuperar todas
As pétalas que amei
Na densa floresta
Das promessas eternas
No bosque edílico
Dos castos sentimentos
No labiríntico jardim
Das sucessivas paixões
No oásis reservado
Aos secretos amores.

Podia partir sem avisar
Sem norte nem sentido
Sem destino previsto
Sem rumo definido
Sem opção tomada
Sem escolha prévia
Sem sequer pensar
Em nada nem nisso
De partir.

Podia partir
Em busca de mim
Num simultâneo regresso
Como o vai e vem
De um louco
Num corredor
De hospício.

Podia partir
Agora!

miércoles, 21 de marzo de 2007

EM PROL DA POESIA



Em prol da poesia

guardar-lhe-ei a noite

e o silêncio das palavras

e uma vela onde a chama

consuma seus sonhos.


Em prol da poesia

guardar-lhe-ei minhas horas

passadas frente ao mar

do qual a voz das ondas

me invada de maresia.


Em prol da poesia

guardar-lhe-ei

a planície da vida

o vale da morte

e o planalto

da eternidade.


Em prol da poesia

um sopro de alma

num gesto qualquer.

domingo, 11 de marzo de 2007

PALAVRAS NOSSAS




Amo as palavras
Que começam nos lábios
E findam num beijo

Amo as palavras
Que se cruzam num olhar
E se repetem mais tarde

Amo as palavras
Que estendem os braços
Aos braços estendidos

Amo as palavras
Que dão voz ao silêncio
De um desejo guardado

Amo as palavras
Que sempre em ti escuto
Sem nunca me as dizeres

Amo as palavras
Que hoje aqui escrevo
Porque falam de nós.